Relacionamento afrocentrado: compreenda os fatores políticos e históricos!

Todo mundo sabe o que é solidão. Há algumas pessoas que vivenciam este conceito na prática. Afinal, a raiz da solidão de algumas pessoas é muito mais profunda do que de outras — como é o caso da solidão da mulher negra, trans e lésbica e do homem negro e gay.

Estar e se sentir sozinho em um mundo rodeado de gente pode parecer um problema comum que é discutido em divã de psicanalista. Mas, quando se trata dos negros, o buraco é mais embaixo, pois essa solidão tem raiz social, política e histórica.

Neste post, buscamos entender a origem histórica dessa imensa solidão e desvendar os conceitos que norteiam o relacionamento afrocentrado. Vamos lá?

O relacionamento afrocentrado

Para quem ainda não está familiarizado com o termo, relacionamento afrocentrado nada mais é que o relacionamento entre nós, pessoas negras. E isso independentemente de gêneros e orientações sexuais.

Mas não se trata apenas de encontrar um par ideal para viver um romance. Quando um negro ama outro negro, isso se torna um gesto político de resistência, que requer atenção redobrada e esforços contínuos em prol do fortalecimento de nossas raízes. Vamos entender o porquê.

A hipersexualização do corpo negro

A solidão da mulher negra tem sido debatida em universidades e congressos acadêmicos porque é uma das questões que mobilizaram a criação do conceito do amor afrocentrado. Esse conceito, no entanto, passa pela discussão sobre a hiperssexualização do corpo negro.

Desde quando foram retiradas de sua pátria e trazidas à força para realizar trabalho escravo, nossas ancestrais passaram pelo processo de perda de identidade e autonomia. Elas foram excluídas e marginalizadas em uma sociedade que não previa seu espaço — a não ser no trabalho escravo, o que incluía a sua exploração em atividades sexuais não consentidas.

Quando essas mulheres recebiam as cartas de alforria, muitas foram obrigadas a viver sozinhas, já que não possuíam vínculos. Na senzala, os negros eram proibidos de formar família, e caso os senhores de escravos percebessem algum laço afetivo, eles separavam como forma de manter o domínio físico e psicológico dos negros.

As condições de trabalho escravo tiram a dignidade do ser humano e, no caso da escravização no Brasil, os negros nem humanos eram considerados. Por isso, a exploração ou a violação sexual dos seus corpos não era vista como algo criminoso.

A etimologia e sociologia da mulata

A construção social da negra como serva sexual se deu nessa época, quando os senhores se aproveitavam delas sem se preocupar com filhos mulatos e bastardos. A palavra mulata vem de mula — que significa animal híbrido — e foi usada pejorativamente para chamar os filhos mestiços que nasciam dessa relação.

Ainda hoje, o estereótipo da mulher negra como sexy e serviçal é disseminado em livros, novelas, campanhas publicitárias, por exemplo, o que mais uma vez as impede de criar laços afetivos e passam a ser vistas como impossíveis de ser amada.

A luta pela descolonização das relações

Nos relacionamentos inter-raciais no Brasil, a maioria dos casais é composta por homens negros e mulheres brancas. Formar família é um ato lindo e digno, e não queremos questionar a família e o amor de ninguém, mas levantamos o conhecimento de que os relacionamentos inter-raciais no Brasil foram vistos como política pública.

— Ué, mas o amor foi tratado como responsabilidade do governo?

Exatamente! O governo desejava clarear a população e, por isso, incentivaram os relacionamentos inter-raciais. Bizarro, né? Após toda essa leitura, podemos repensar o impacto das políticas sociais e econômicas de um país quando interfere no amor da sua população.

Um exercício: Se te pedirmos para fechar os olhos e imaginar uma princesa, ou um principe, como fomos ensinados a desejar para o casamento desde pequenos com os contos de fadas infantis. Como você os imaginaria?

O amor como resistência política

O relacionamento afrocentrado também está na esfera homossexual e transgênera. Amar outro negro do mesmo sexo mostra uma busca maior por representatividade e realça o fortalecimento da nossa autoestima.

Eleva o relacionamento a outro patamar, que não só uma relação amorosa — mas, sim, uma relação de igualdade e de luta conjunta. Legitima o posicionamento político para o fortalecimento da nossa etnia e reage, com amor, a toda opressão que sofremos.

Importante também falarmos do relacionamento LGBT afrocentrado  que confronta todo o sexismo e a heteronormatividade e assim conquista espaço com a luta pelo direito ao amor. E precisamos de muito amor!

E você, já tinha parado para refletir sobre isso? Acha que faz algum sentido? Compartilhe a sua opinião nos comentários!

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