O carnaval é uma festa do povo, uma das expressões populares que compõem a identidade cultural brasileira, livre, democrática e, em teoria, inclusiva.

Juntamente com o período carnavalesco surgem os questionamentos em relação ao sexismo, racismo e outras discriminações presentes em marchinhas e fantasias durante a festa (no post anterior falamos um pouco sobre a figura da nega maluca e blackface).

Trouxemos duas marchinhas muito conhecidas para analisarmos as letras e as problemáticas implícitas (ou nem sempre) em suas letras.

A primeira delas é “Teu Cabelo Não Nega”:

“O teu cabelo não nega mulata / Porque és mulata na cor / Mas, como a cor não pega, mulata / Mulata, eu quero o teu amor”

A primeira problemática é em relação à palavra mulata, explicado por Djamila Ribeiro: “Além do que, o termo “mulata” é igualmente pejorativo. Trata-se de uma palavra de origem espanhola que vem de “mula” ou “mulo”, fazendo referência àquilo que é híbrido em relação ao cruzamento de espécies. Mulas são animais nascidos do cruzamento dos jumentos com éguas ou dos cavalos com jumentas.

Refere-se, portanto, a uma expressão pejorativa que indica mestiçagem, mistura imprópria. Utilizado desde o período colonial, essa palavra era empregada para designar pessoas negras de pele mais clara, frutos dos estupros sistemáticos de mulheres escravizadas pelos senhores de engenho.” 

Em seguida, vemos o verso “mas como a cor não pega, mulata/Mulata, eu quero o teu amor” tratando a negritude como uma doença, deixando claro que o relacionamento dos dois só é possível porque a cor da pele não é “contagiosa”.

A segunda é a marchinha “Olha a cabeleira do Zezé”:

“Olha a cabeleira do Zezé
Será que ele é?
Será que ele é?

Olha a cabeleira do Zezé

Será que ele é?

Será que ele é?

Será que ele é bossa nova?
Será que ele é Maomé?
Parece que é transviado
Mas isso eu não sei se ele é

Corta o cabelo dele!
Corta o cabelo dele!
Corta o cabelo dele!
Corta o cabelo dele!”

Nessa marchinha vemos traços claros de homofobia e racismo.

Muitas pessoas demonstram um certo desconforto ao questionarmos as letras de algumas dessas músicas. “É apenas brincadeira”, “é carnaval”. Mas deixar de cantar essas musicado que machucam, diminuem e interferem a vida e o desenvolvimento de tantas outras pessoas não afeta negativamente a vida de ninguém. O repertório de carnaval é vasto e podemos escolher músicas que não ofendem ninguém e nos divertirmos da mesma forma.

Ser negro não é fantasia e ser LGBTQI+ não é piada.

#CarnavalSemRacismo

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *


Share This